quarta-feira, 17 de maio de 2017

À ENTRADA DA TERRA DO LEITE E MEL






À ENTRADA DA TERRA DO LEITE E MEL

(Livro de Números, XIII )

Como os olhos dos doze às portas do leite e do mel
o desânimo vai ter olhos e as alegrias diante das videiras
de enormes cachos serão menores que o medo
o desânimo fará aumentar nas retinas
a estatura dos homens, gigantes como colossos
ocupam  as portas, o medo bate nos olhos
o desânimo aconselha cuidados,  regressar
às areias do deserto, à cabeça escondida na areia
e às sombras dos pequenos arbustos, não temos
ainda braços para abraçar a Terra Prometida.

16-05-2017

© João Tomaz Parreira  

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Os espaços do sono – Robert Desnos


Os espaços do sono 
Tradução de Eclair Antônio Almeida Filho
À noite há naturalmente as sete maravilhas do mundo e a grandeza e o trágico e o encanto.
Nela as florestas se chocam confusamente com criaturas de lenda escondidas nos bosques.
Há você.
Na noite há o passo do caminhante e o do assassino e o do agente de polícia e a luz do revérbero e a da lanterna do trapeiro.
Há você.
Na noite passam os trens e os barcos e a miragem dos países onde é dia.
Os derradeiros sopros do crepúsculo e os primeiros arrepios da aurora.
Há você.
Uma ária de piano, um brilho de voz.
Uma porta range. Um relógio.
E não somente os seres e as coisas e os ruídos materiais.
Mas ainda eu que me persigo ou sem cessar me ultrapasso.
Há você a imolada, você que eu espero.
Por vezes estranhas figuras nascem no instante do sono e desaparecem.
Quando cerro os olhos, florações fosforescentes aparecem e murcham e renascem como carnosos fogos de artifício.
Países desconhecidos que percorro em companhia de criaturas.
E há você sem dúvida, ó bela e discreta espiã.
E a alma palpável do espaço.
E os perfumes do céu e das estrelas e o canto do galo de há 2 000 anos e o choro do pavão em parques em chama e beijos.
Mãos que se apertam sinistramente numa luz baça e eixos que rangem sobre estradas medusantes.
Há você sem dúvida que não conheço, que conheço ao contrário.
Mas que, presente em meus sonhos, te obstinas a neles se deixar adivinhar sem aparecer.
Você que permanece inapreensível na realidade e no sonho.
Você que pertence a mim por minha vontade de possuí-la em ilusão, mas que não aproxima seu rosto do meu como meus olhos fechados tanto ao sonho como à realidade.
Você que a despeito de uma retórica fácil em que a onda morre nas praias, em que a gralha voa em usinas em ruínas, em que a madeira apodrece rachando-se sob um sol de chumbo.
Você que está na base de meus sonhos e que excita meu espírito pleno de metamorfoses e que me deixa sua luva quando beijo sua mão.
À noite há as estrelas e o movimento tenebroso do mar, dos rios, das florestas, das idades, das relvas, dos pulmões de milhões e milhões de seres.
À noite há as maravilhas do mundo.
À noite não há anjos da guarda, mas há o sono.
À noite há você.
No dia também.

sábado, 15 de abril de 2017

MARIA MADALENA


(Germain Pilon, 1537-1590, The Ressurrection of Christ, Louvre)



Maria Madalena seguiu o rasto do perfume
do seu Amor e chega cedo ao sepulcro
Maria Madalena ouvia
cada sombra do caminho e esperava do fundo
do sepulcro o silêncio matinal, onde queria
entrar docilmente com perfumes
levava nos seus olhos a tristeza
de flores minúsculas à chuva
o seu coração carregava uma dúvida
Mas se a Morte existe
é porque depois existe a Vida.


15-04-2017

© João Tomaz Parreira

sábado, 8 de abril de 2017

Samy Adghirni: Os persas e seus nomes poéticos

Poesia é coisa séria no Irã. Quase todo mundo sabe de cor um monte de versos, rodas de amigos adoram debater autores e um dos principais ícones nacionais é o poeta Hafez (1310-1390), cujo túmulo em Shiraz atrai romaria do país inteiro. Hafez, aliás, era crente e capaz de recitar o Corão inteiro, mas celebrou em sua obra a embriaguez e o amor.
O gosto pela poesia parece ser um traço milenar da cultura persa, e até hoje pais dão aos filhos nomes, ou prenomes para ser mais exato, que são pura metáfora. Uns são bucólicos, outros românticos. Há também os metafísicos. É exemplo pra todo lado.
Tenho uma amiga que se chama Yeganeh (única no mundo). A irmã dela é Taraneh (canção). A chefe da agência Reuters no Irã leva o prenome de Parisa (aquela que é como uma fada). O da iraniana mais famosa do planeta, a ativista de direitos humanos e Nobel da Paz Shirin Ebadi, significa “doce”. Não confundir com “açúcar”, ou Paníz, em farsi, como é chamada minha assistente. Simin, personagem principal do badalado e premiado filme “A Separação”, quer dizer “aquela que brilha como prata”.
Homens também levam prenomes na mesma linha. Meu cabeleireiro é Behrooz (dia feliz), e o recepcionista do hotel onde fiquei ao chegar, Navid (boa notícia). Um tempo atrás entrevistei um cantor que se chama Omid (esperança). Conheço um sujeito que é Payam (mensageiro).
Ouvi vários outros nomes poéticos. Meus preferidos são Kohinoor (montanha de luz), Shahin (falcão peregrino) e Parastoo (andorinha).
Mas já repararam que os nomes dos governantes iranianos geralmente não seguem esse padrão? O presidente é Mahmoud [Ahmadinejad]. O líder supremo chama-se Ali [Khamenei], assim como o chanceler [Akbar Salehi] e o poderoso chefe do Parlamento [Larijani]. O Ministro da Defesa chama-se Ahmad [Vahidi] e o primeiro vice-presidente, Mohammad [Reza Rahimi].
Esses são nomes muçulmanos de origem árabe, comuns em famílias mais religiosas e, portanto, mais propensas a endossar o regime teocrático. Afinal, a influência árabe na Pérsia veio com a disseminação do islã, surgido onde é hoje a Arábia Saudita, lá pelos séculos 7, 8 e 9. Antes disso os persas eram essencialmente zoroastras, judeus e cristãos _hoje minorias.
[Folha SP, 1 mar 12]

sexta-feira, 31 de março de 2017

ALMOÇO NO TOPO DE UM ARRANHA-CÉUS




Como folhas presas no mesmo ramo
procurando no topo o lugar
 do sol.  Enquanto no solo
pequenos seres
raspam no chão o musgo, procuram
ganhar o dia,  correndo sob o mistério.
Vários rostos do mesmo inteiro ramo,
só quando o ocaso desce, saem das alturas
e se misturam na multidão.

31-03-2017

© João Tomaz Parreira  

quarta-feira, 29 de março de 2017

VIGÍLIA


Foto: Catherine Leroy, Vietnan, 1967


Senhor, partiram tão tristes
Os seus olhos, tão raiados de sonhos
Ainda há pouco punham a vida em dia.

Falávamos de planos, um cigarro
Ardia como única chama dos lábios,
Falávamos da primeira mulher
Que amamos, tão longe o nosso coração.

De Deus falamos às vezes, tão longe
Entre nuvens, aonde quer que fossem
Só os nossos passos cortavam o silêncio.

Agora os seus olhos partiram e só
Têm as minhas lágrimas, que me golpeiam
As pálpebras. O sol tropical é um pobre
Fantasma ele também entre a névoa matinal.

29-03-2017

© João Tomaz Parreira

sábado, 25 de março de 2017

E-book PASSAGEM: A poesia de Newton Messias


Prefácio

A poesia de Newton Messias é a verbalização de sua ampla humanidade: ora ferida (& exposta), ora oferta amiga, contundente em sua busca de paz e equalização, justiça e misericórdia. Frutos que ela quer e possui, e, em seu amor resiliente, avança semeando-os em todas as escalas, fundando suas próprias territorialidades semióticas.
Seu verso ora livre, ora liberto em rimas, tem o toque desconcertante e álacre da poesia marginal; alma e musicalidade são o tônus de suas composições, onde toda uma herança de modernos faz-se ouvir, ruído de fundo, eco a perpassar sua prosódia prenhe de linguagens mestiçadas. Filho e andarilho do mesmo chão pernambucano que um Cabral de Mello Neto e um Manoel Bandeira, encontramos em Newton um poeta feito, que trabalha a palavra com a perícia com que dedilha seu violão (é professor da violão clássico no Conservatório Pernambucano de Música).
Sua poesia não se alheia, refém de vazios alumbramentos, mas firma sua voz no cotidiano, percebendo e decompondo(-se) (n)o zeitgeist, o espírito de seu tempo, como neste trecho dePaz moderna:
após desejar bom dia em trinta grupos do whatsapp
saiu calado sem cumprimentar ninguém

depois de assinar um avaaz contra a corrupção
estacionou na vaga de idoso (...)

Sua fé é a crença dos alforriados da religiosidade, dos que depositam em Cristo o somatório de tudo o que são – fraquezas e dons, sucessos e angústias – enfastiados pelo moroso amor e a célere corrupção que faz descarrilhar do verdadeiro cristianismo a tantas das instituições ditas cristãs.
É um prazer segredar ao leitor que este pequeno volume, para parafrasear o título de um famoso livro de Mário Quintana, é um Baú de (alegres) Espantos, uma aprazível seleta de poesia das mais vivazes, audazes e comunicantes de empoderamento, empoderamento em amor, que tenho lido nos últimos tempos.

Sammis Reachers

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