sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ALBATROZ



Já nem viaja, olha
talvez seja uma bandeja de cristal o vento
em que o albatroz flutua
talvez sinta medo quando
uma nuvem lhe rouba do sol
o derradeiro ramo
Mas continua, continua
com a volúpia do ar a alisar as asas
já pouco falta para o Pólo, onde
o topo do mundo é um dia branco.

 
31/8/2012
© J.T.Parreira

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Hino Combatente


Hino Combatente

Antes achei ouvir a voz de minha mãe;
Depois acreditei ser a mi
nha esposa a cantar.
Que magia e espanto serão esses, Capitão?
Alguém canta um hino que a tudo perpassa.
Alguém canta uma canção com voz de muitas águas,
Mas não o posso divisar; o hino vem
De dentro da escuridão e da bruma,
vem de todas as direções.

Capitão, quem será esta que chama?
Este dulçor de hino combatente, que
A um tempo pacifica e excita,
Quem o profere, qual será seu objetivo?
Será esta então a música das esferas,
O sussurrar de Afrodite?
Então a Escuridão tem um canto,
Então este brado de sedas é o seu chamado?
Capitão? Senhor, pode me ouvir?
Ulisses!? Ulisses?

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

NÃO VOLTO PARA ÍTACA

NÃO VOLTO PARA ÍTACA

Ἄλλα δὲν ἔχει νὰ σὲ δώσει πιά. 
“Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te”
in “Ítaca”, de Konstantinos Kavafis (trad. de Jorge de Sena)

não volto para Ítaca
não encontro o caminho
e se os pretendentes ocuparam
o trono? ou já não haja peixes
que se cheguem à mão das crianças
quando estas dão uns pequenos passos
nas águas das praias mornas?

já não há velhos imersos à sombra das árvores
a jogarem ao dominó, e lançando
piropos às jovens que passam
devagar de corpos de palmeira
nem há águias que façam ninho nas falésias
de Ítaca terão partido para a pátria dos Lestrígones?
lá os picos são mais altaneiros

ouvi das sereias que finalmente, os filhos
de Cila e Caríbdis invadiram Ítaca e lá impuseram a lei
mas tenho lá meu querido pai, Laertes
a minha Penélope, meu sol no zénite
e meu pequeno Telémaco — agora já adulto
não os posso deixar lá, sós
mas como destruíram de Ítaca
os portos e os barcos
só lhes posso pedir que venham
a nado até ao meu navio
bastar-me-á lançar a âncora, embora a placa continental
de Ítaca desça a pique até aos abismos

já não volto para Ítaca
ouvi que falam e escrevem lá
agora uma língua estrangeira — não, não é a dos Feaces
é de uma potência ascendente, o Púnico,
já antes ocupavam a Sicília, mas como não previ eu
o herói barbudo dos engenhos sem número,
que se lhes não estreitaria a ambição
o reino de Siracusa?

a ágora de Ítaca está despida de gente
já para lá não volto
para onde quer que eu vá,

é Ítaca o cristal dos meus olhos
por isso rumo para Olissipo

Rui Miguel Duarte
27/08/12

O DRAMA DE CALLAS



A minha voz cinge as rosas
e engrandece
o ouro das harpas dos anjos, não
não saem palavras, mas rouxinóis
A minha voz engrandece o Senhor
do silêncio, que encosta a sua mão
e descansa nela o rosto aurifulgente
O meu cântico engrandece-Te
cada ária é uma despedida
da argila de que é feita
a brancura frágil do meu corpo.
 
 
18/8/2012
© J.T.Parreira

domingo, 26 de agosto de 2012

Dois poemas de Francisco Carlos Machado


  
 IV
  
Madrugada...
Uma voz súbita vinda de outro quarto,
me aconselha:
- Vai dormir rapaz,
isso não tem futuro.
Calo-me. O que hei de fazer?
Não me existe sono
e a poesia se revela a mim.



Um Pinheiro

Cresce dentro de mim
um pinheiro:
calmo, incógnito, fugaz.
Encovado entre artérias,
suas raízes espalham-se
em cada veia do meu corpo.
Alimentando-se da seiva criada
e formada no sistema de emoções. 
Fixando assim, uma existência profunda,
no lirismo mortal e sensível da minha alma.
                         
Esse pinheiro, rusticamente me ocupa,
declarando que não mais a mim pertenço.
Que seu tronco e galhos, suas folhas pontiagudas,
formará milenar paisagem natalícia 
na geografia vital das experiências da existência.
Renegando ou não a força simples e poderosa
que o faz crescer altívolo dentro de mim.

Verasmente milenar?
Tornar-se-á milenar esse pinheiro em mim?
Suportaria o mistério das ventanias vindas constantes,
ameaçando sua ascensão e vitalidade?
As mudanças súbitas e excêntricas
de humores circundantes nas artérias?
E as diferenças latentes, agitações perturbadoras
dos ofícios diurnais e silenciosos das noites?

Um pinheiro, em um dia vitalício
foi encovado dentro de mim.
Não em um canto, mas no meu coração.
Para contar histórias, derramar lágrimas apreensivas,
saudosistas e melancólicas.  
Produzindo pinhos de poesia, felicidades e renúncias. 
Pregando profundo que nunca se vive sozinho.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

BALADE POUR FORT VAUX

(à la mémoire de l’épisode du Fort Vaux 1 à 7 juin 1916, bataille de Verdun)

Cette semaine là il a plu
il a plu sur les casques des hommes
il a plu sur leurs pieds
lorsque toutes les nuages conjurèrent
d’écraser la terre
écrasèrent leurs poumons
leur air leurs excréments
il a plu et cette pluie
fendilla leurs gueules
ils étaient des taupes démons
des galeries Pandore serrée dans sa boite

qui leur relâchera leurs épaules
de telle masse de montagne ?

quelle pluie qui leur
sécha toute l’eau
quelle pluie qui leur
écrase les cendres
qui leur lava l’oubli

sacré juin !
il n’y aura plus de juin depuis juin

Rui Miguel Duarte
23/08/12




segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Alguém que vale a pena conhecer





Levava uma vida generosa
paciente
desprevenida do dia de amanhã
como as aves e os lírios
a Voz, no entanto, quando abria
rasgos profundos no silêncio
possuia a autoridade
do dia antes
do princípio de toda a Criação.


20/8/2012


© J.T.Parreira

sábado, 18 de agosto de 2012

O Brasil na Segunda Guerra Mundial: 3 poemas épicos de Mário Barreto França



"TRÊS HERÓIS BRASILEIROS"

(Depois da tomada de Monte Castelo, quando o Pelotão de Sepultamento chegou à  região de Montese, encontrou num terreno abandonado pelos alemães uma singela cruz, sobre a qual, em idioma alemão, havia esta tosca inscrição: "Três heróis brasileiros". Verificou-se, depois, tratar-se dos soldados  Geraldo Baêta, Arlindo Lúcio e Geraldo Rodrigues do 11º R.I.")

O dia amanhecera há muito tempo; entanto
a imensa cerração, como se fora um manto,
grande e espesso , escondia o côncavo do céu;
Daquele céu tão frio e cheio de escarcéu,
que despejava a morte, o sobressalto e as dores
dos bojos de metal dos bélicos condores...

A pequena patrulha estacou um momento,
envolta na neblina; o heroico Regimento,
do qual fazia parte, aguardava a mensagem
sobre o inimigo audaz, para forçar passagem
nas linhas de Montese...
Era pois necessário
seguir, a qualquer preço, o ousado itinerário.

A pequena patrulha era de três soldados:
Geraldo, Arlindo e Baêta, unidos e irmanados
no mesmo sacrifício e no mesmo ideal
de dar um lenitivo à angústia universal.
Lutando sem quartel pela igualdade humana,
legando a liberdade à pátria soberana...



Estava quase finda a missão recebida,
quando surgiu galharda, ao cimo da subida
da encosta de Montese, uma tropa alemã,
que os ordenou parar...
Já o sol da manhã,
doirava o verde-escuro e fosco da folhagem,
dando um ar pitoresco à itálica paisagem.

Como se fossem um, intrépidos, ligeiros,
os três jovens heróis soldados brasileiros,
lançaram-se ao terreno e abriram fogo forte,
na luta desigual para a vitória ou morte...

-"Fogo!Fogo! (Gritou Arlindo aos companheiros),
eles hão de saber que somos brasileiros!
Enquanto houver cartucho aqui no meu fuzil,
haverei de lutar em nome do Brasil!"
E Geraldo, ao Baêta: "Aguenta o fogo, amigo,
senão iremos cair nas mãos desse inimigo,
que não nos poupará! Fogo! Fogo!"
Foi quando
refeita da surpresa e melhor manejando
seus rápidos fuzis, a tropa adversária,
com brio se engajou na luta sanguinária...

Geraldo fustigou pelo flanco direito,
Baêta e Arlindo à esquerda; e de tal forma e jeito,
que pareciam cem, que pareciam mil,
na defesa incomum das cores do Brasil.
Quando, porém, findou a munição, Baêta
gritou: - "Agora o assalto! Avante, a baioneta!"

Como se fossem um, novamente eles três,
ergueram-se do chão pela última vêz;
e avançaram bradando - "Abaixo a tirania!
Viva, viva o Brasil! Viva a Democracia!

E, naquele avançar heróico, se escutaram
três rajadas, três ais, três corpos que tombaram.
Num rasgo de bravura e em protesto viril,
à cobarde agressão aos foros do Brasil.
Quando foram à pique em águas nacionais,
navios sem defesa e em rotas comerciais;
levando ao fundo mar centenas de crianças,
de irmãos, de mães e pais, formosas esperanças
que a Pátria alimentava em prêmio de seguro,
ao dia de amanhã, à glória do futuro...

Depois, sobre a colina o silêncio se fêz...
Três corpos sobre o chão... E eram cem contra três...
Mais vida e munição tivessem, lutariam,
pois à força maior, jamais se renderiam!...

Ó página de glória, o gesto sobranceiro,
da história militar da F.E.B. no estrangeiro!
Foste escrita com sangue em terras tão distantes,
mas o exemplo deixado aos pósteros ovantes,
há de frutificar como um loiro trigal,
para a manutenção da honra nacional!

E o silêncio se fez... O comando alemão
da trincheira se ergueu, de binóculo à mão
observou a encosta, o céu, a redondeza.
Os três corpos no chão... e notou com surpresa,
que o heroico inimigo, orçado em cem ou mil,
eram somente três soldados do Brasil.

Sugeriram-lhe, então, em justa represália,
as baixas que sofreu na campanha da Itália,
deixar presa  a cada um cadáver brasileiro,
uma mina explosiva... Assim, quando o primeiro
pelotão os viesse erguer pra sepultar,
com eles, na explosão, voaria pelo ar.

Porém, o comandante, um jovem capitão,
honrando as tradições do Exercito Alemão,
respondeu-lhes, dizendo: - "O valor do soldado,
em qualquer condição, deve ser respeitado;
Eles foram heróis e, por sua bravura,
como os nossos, terão condigna sepultura!"

Foi feita a cova rasa, e os heróis soldados,
como se fossem um, ficaram sepultados,
enquanto em continência, a tropa se postava,
e o toque de silêncio os homenageava.
Então, como epitáfio, em idioma alemão,
foi feita, a tinta preta, esta tôsca inscrição
sobre a singela cruz:
-"Três heróis brasileiros!"
E eram de outros heróis, louvores verdadeiros!

*  * * * * * *

E quando, à tarde, o céu se avermelhou no poente,
frouxo raio de sol veio, serenamente,
num beijo singular de  amor e despedida,
trazer o último-adeus da Pátria agradecida,
que os consagrava, assim, soldados verdadeiros:
Três glórias nacionais! Três heróis brasileiros!



"O HERÓI DE ABETAIA"

(Ao Regimento Sampaio e ao heroísmo do Sargento
Luiz Rodrigues Filho e do Capelão João Soren.)

...E a notícia correu, levando esse desfecho:
- "O Brasil declarou-se em guerra contra o Eixo!..."

O Sargento Luiz ouvia o rádio em casa;
E diante dessa nova, o coração lhe abrasa:
Pensou no Baipendi e nos outros navios,
afundados de noite, em meio aos desafios,
dos agressores vis, cobardes, desalmados,
que metralhavam rindo os botes apinhados,
de desvairadas mães, de filhos que choravam
e de esposas que ainda as ondas perscrutavam.
- Quem sabe? - para enviar um vislumbre de paz
aqueles que  - talvez - não voltariam mais...

E, cônscio do dever que a disciplina exige,
farda-se incontinente e ao quartel se dirige,
para se apresentar e ter o seu fuzil
com que defenderia a honra do Brasil...

Alguns meses depois, com a gloriosa F.E.B,
nalgum porto da Itália, ele também recebe,
de outros povos irmãos, a homenagem primeira
ao canto do hino pátrio, em frente da bandeira...
Nesse instante febril sua alma se extasia,
na ânsia de defender essa democracia,
que, em nome da justiça, acena para o mundo,
prometendo um futuro esplêndido e fecundo.
Onde o Direito e o Bem, irmanados no Amor,
fazem da vida um céu de primavera em flor...

Certo dia foi dada uma ordem ao Regimento
Sampaio, de avançar...
E a missão do Sargento
Luiz era envolver, pelo flanco, Abetaia.
- Um lugarejo que servia de atalaia,
ao exército alemão, que no Monte Castelo,
aguardava o sinal para o combate... -
Belo
e forte, ele dispôs seu grupo para o ataque,
dizendo - "Cada qual se bata com destaque,
procurando elevar bem alto a nossa terra,
defendendo as razões que trouxeram à guerra,
as forças do Brasil! Que cada um se convença
que o mundo de amanhã lavrará a sentença
de morte ou de perdão pelos feitos de agora,
que  hão de servir de marco à inolvidável hora
desta época que tem como escopo a Verdade.
- Suprema aspiração de toda a humanidade!"

E a luta começou. O sibilar das balas,
as chamas a rolar pelos bordos das valas.
Morteiros explodindo e canhões ribombando,
bombardeiros do céu granadas despejando.
E gritos, e explosões, e pragas e gemidos,
e os horrores da morte e o sangue dos feridos.
Tudo se misturava em delírio profundo,
sob o luto da noite, amortalhando o mundo...

O heróico grupo avança... Está  quase cumprida
difícil missão por ele recebida...
Já são poucos, então...

Calaram-se os canhões...
O inimigo abandona as suas posições...
É o assalto final...
O inimigo recua...
Mas... sobre o chão da Itália, à frouxa luz da lua,
os corpos dos heróis, frios ensanguentados,
marcavam, nesse instante, os traços mais sagrados,
que haveriam de unir a família remida
no monumento ideal da Pátria agradecida...

Algum tempo depois, na piedosa missão
de mortos recolher, um jovem capelão,
entre outros corpos, acha o do Sargento Luiz,
sobraçando a sua arma...
E um sorriso feliz,
nos lábios esboçado, era o argumento forte
que ele entrara no céu pelos umbrais da morte...

Um projétil lhe houvera atravessado o peito;
Mas não morrera logo... achara ainda um jeito,
de tirar do seu bolso um Novo Testamento
com Saltério... e sentir ali, nesse momento,
o desejo de ler, pela última vêz,
como se fora seu, o Salmo vinte e três:

- "O Senhor é o meu pastor, nada me faltará!
Deita-me em verde pasto e guia-me onde há
água tranquila e sã! Refrigera a minha alma!
Dirige-me à vereda esplendorosa e calma
da justiça e do amor! E ainda que ande sem norte
pelo vale da sombra esquálida  da morte,
não temo mal algum, pois tu estás comigo.
Teu cajado me guia e livra do perigo;
tua voz me consola; a tua unção me anima;
o meu cálice transborda; a minha alma sublima.
Na esperança e na fé! Certo, tua bondade,
tua misericórdia e tua caridade
seguir-me-hão, pra sempre, entre paz e alegrias;
e habitarei, Senhor, contigo longos dias!..."

E não lera mais nada...
A cabeça reclina
sobre o Saltério aberto...
E, na graça divina,
como um justo, perdoando, em paz adormeceu,
e como herói, honrando o seu país, morreu...

* * * * * *

Hoje no cemitério humilde de Pistóia.
- Pedaço do Brasil engastado na joia.
De uma saudade eterna - em chão da Itália, a lousa,
com um número qualquer, indica onde repousa,
a sombra do auri-verde estandarte, um sargento,
que, morrendo, exaltou seu nobre Regimento.
Porque soube atender, com presteza e valor,
ao chamado da Pátria e à voz do Bom Pastor!

- - - - -

  Icaraí - 1947



Último Combate

- “O combate será a uma hora da tarde!”
Foi a voz que se ouviu, como horrível alarde,
Ao longo da trincheira... E o dia era tão lindo!...

- Como é belo morrer quando se vai sorrindo
Para a luta cruel, numa manhã como esta,
Toda cheia de luz, toda cheia de festa!...

(Era um belo rapaz que me falava.)

- Escuta,
(Perguntei-lhe) não tens receio desta luta?
Ele não respondeu, porém, sentidamente,
Cantou ao violão uma canção pungente...
E me disse, depois, com olhos rasos dágua:
- Não! Eu não temo a morte! O que me causa mágoa
É me sentir tão longe, é me ver tão sozinho
E não voltar jamais ao calor do meu ninho,
Onde, entre beijos bons de minha doce esposa,
Meu filhinho me espera, e, esperando, repousa...
Quando eu vim para cá, beijando-me, ele disse
Uma frase qualquer, uma linda tolice...
Mas, depois, enxugando uma lagrimazinha,
Deu-me um livro, dizendo: “É uma lembrança minha,
Papai! Quando o senhor estiver em perigo,
Leia este livro, ouviu?! Jesus é nosso amigo!
E o senhor não será mais sozinho nem triste,
Porquanto onde Ele está tudo o que é bom existe!”
E ele continuou a cantar. Que tristeza
Começava a pesar em toda a natureza!...
E eu fiquei a invejar sua alma comovida,
Porque era triste só no deserto da vida...

A chuva começara a cair lenta e fina...
Como interrogação fatídica, a colina
Mostrou-se ao nosso olhar, cheio de nostalgia,
Perversamente verde e tristemente fria.
... ... ... ... ... ... ... ...

A luta começou terrível. A metralha
Ia levando a morte ao campo de batalha.
Gritos, imprecações e vozes de comando
Juntavam-se no espaço escuro e formidando...

Pungente agonizar de uma tarde cinzenta,
Tarde que quis ser linda e que foi tão cruenta!...

Quando a noite caiu, negra e fria, tornou-se
Mais bárbaro o combate. Era como se fosse
Rude destruição de uma cidade antiga
Pelo ódio figadal da vingança inimiga.

Quando a manhã raiou, o combate findara,
Mas era horrível ver tudo o que se passara...
Espraiei meu olhar pelo campo assolado,
E o pranto me feriu o coração magoado:
É que aquele soldado, inda tão moço e alheio
A essas contradições do Destino, encontrei-o,
Ensangüentado, assim, de bruços na trincheira,
Prendendo ao coração, numa ânsia derradeira,
Da esposa e do filhinho, um retrato cinzento,
Colado à capa azul de um Novo Testamento.

Do livro Primícias da minha Seara
_________________________________

Com a colaboração da poeta Pérrima de Mores Cláudio

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Os barcos de Inhambane





Velas arriadas, remos
descansando o gume
 

os barcos ao sol a secar as águas
e o peixe
é um cheiro sem a cor
nas redes

Então o pôr-do-sol
derrama mel na noite.

17/8/2012

 © J.T.Parreira

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Antologia da Poesia Cristã Universal em ebook grátis



Em 2008, trouxemos a lume a Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa, reunindo textos de 80 poetas do Brasil, Portugal e África lusófona, de Camões aos dias atuais. Já naquele momento, durante minhas pesquisas, ficou patente tanto a inexplicável lacuna bibliográfica, a ausência de obras correlatas em nossa literatura, como também a necessidade de empreender, além da referida antologia lusófona, trabalho ainda mais desafiador e necessário: uma Antologia da Poesia Cristã Universal, compilando dessa vez o melhor da poesia cristã de todo o mundo. Mas confesso que fui adiando e adiando tal empresa, por sabê-la demorada e demandar um esforço terrível, hercúleo. Mas ao iniciarmos o ano de 2012, senti enfim que era tempo, e mergulhei de corpo e alma no trabalho, voltando a ser frequentador habitué da Biblioteca Nacional e do Real Gabinete Português de Leitura, adquirindo livros, ‘desossando’ sites e blogs literários de toda a internet...

O resultado do trabalho está aqui: as 235 páginas deste livro congregam textos de 110 autores, nomes capitais de suas literaturas nacionais. Pode-se dizer, grosso modo, que este livro inicia-se em Aurélio Prudêncio, primeiro grande poeta da cristandade, indo até Ernesto Cardenal, talvez o mais importante poeta vivo da Latinoamérica. Os textos avançam desde os primórdios da poesia cristã latina, passando por versos de pais da igreja, das três maiores epopeias cristãs (A Divina Comédia, a Jerusalém Libertada e o Paraíso Perdido), e indo a períodos em que a poesia do cristianismo atingiu alguns de seus ápices, como por exemplo durante o Siglo de Oro espanhol, com os metafísicos ingleses, e na poesia cristã francesa do século XX.

Ao proceder à leitura, você talvez diga que este livro bem que merecia uma edição impressa – sim, concordo com você, leitor, e com meus amigos que tomaram conhecimento deste projeto - mas merece ainda mais ser compartilhado com quantos for possível, da melhor, mais simples e mais rápida maneira possível, como a própria Boa-Nova de Cristo deve ser compartilhada. E assim o faço, publicando este livro gratuitamente na internet, pois acredito piamente em algo: conhecimento é conhecimento compartilhado. O mais é egoísmo e cabala. Depois pode-se tentar ou não uma edição impressa, para contemplar aqueles ainda muitos que não tem acesso, entendimento ou mesmo prazer em ler em computadores e dispositivos móveis. Mas o principal está feito, o livro está publicado, e espero que uma pequena, mas antiga e significativa lacuna em nossa bibliografia - seja no tocante especificamente à literatura cristã, mas também e de uma maneira ampla para todo o estudo da literatura em si - seja sanada com esta humilde obra, de infelizmente tão poucos paralelos. E que ela possa vir a inspirar autor mais capacitado a encetar obra mais prolífica e abrangente, para enriquecimento da literatura cristã em nossa língua, pois como se diz no livro de Josué 13:1, “...e ainda muita terra ficou por ser conquistada”, e os dois mil anos de cristianismo trouxeram a lume muito, mas muito mais tesouros do que estas singulares joias que vão aqui coligidas.

E que você possa, amado leitor, além de desfrutar da leitura deste livro, compartilhá-lo livremente com seus amigos, leitores e contatos.

Ao Senhor seja dada toda a glória.

Sammis Reachers

Para baixar o livro, CLIQUE AQUI.

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*Caso tenha dificuldade em fazer o download, solicite-me o envio por e-mail: sammisreachers@ig.com.br

Listagem dos autores antologiados, por ordem de entrada:
Gregório de Nazianzo (o Teólogo) - Aurélio Prudêncio - Agostinho de Hipona - Ávito (Aventino) - Agatias Escolástico - Gregório de Narek - Francisco de Assis - Gertrudes de Helfta - Dante Alighieri - Francesco Petrarca - John Lydgate - Michelangelo Buonarroti - Martinho Lutero - Vittoria Collona - Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus - Pierre de Ronsard - Frei Luis de León - Baltazar de Alcázar - Francisco de Aldana - João da Cruz - Torquato Tasso - Miguel de Cervantes - Agrippa d’Aubigné - Balassi Bálint - François Malherbe - Luis de Góngora - Lope de Vega - John Donne - Francisco de Quevedo - Francisco López de Zárate - Juan de Tassis - Pedro Soto de Rojas - Dirk Rafaelsz Camphuysen - George Herbert - Francis Quarles - Autor espanhol desconhecido - Calderón de la Barca - Gabriel Bocángel - Pierre Corneille - Paul Gerhardt - John Milton - Richard Crashaw - Andreas Gryphius - Henry Vaughan – Moliére - Jean Racine - Edward Taylor - Madame Guyon - John e Charles Wesley - Thomas Gray - Mathias Claudius – Goethe - William Blake - Friedrich Holderlin - Juan Nicasio Gallego - Achim Von Arnim - Marceline Desbordes-Valmore - Ludwig Uhland - Lorde Byron - Friedrich Rückert - Alphonse de Lamartine - Theodor Körner - Alfred de Vigny - Heinrich Heine - Aleksandr Pushkin - Vítor Hugo - Eduard Mörike - Elizabeth Barret Browning - Henry Wadsworth Longfellow - Giuseppe Giusti - Emily Dickinson - Paul Heyse - José-Maria de Heredia - Gerard Manley Hopkins - Paul Verlaine - Erik Axel Karlfeldt - Miguel de Unamuno - Paul Claudel - W. B. Yeats - Silvano do Monte Athos - Rubén Darío - Francis Jammes - Amado Nervo - Charles Péguy - Gertrud Von Le Fort - Oscar Lubcz Milosz - Juan Ramón Jiménez - Jules Supervielle - D. H. Lawrence - Joyce Kilmer - Pierre Jean Jouve - T.S. Eliot - Gabriela Mistral - Ugo Betti - César Vallejo - Jorge Guillén - Lucian Blaga - Marià Manent - Dietrich Bonhoeffer - W. H. Auden - Leopoldo Panero - Luis Rosales – Melissanthi - Czeslaw Milosz - Francisco Matos Paoli - Denise Levertov - Carlos Bousoño - Jaime García Terrés - Ernesto Cardenal - Maria Victoria Atencia

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Desentrelaço





Entrelaço as palavras
de cada dia
no sussurro dos seus próprios ecos
mais tarde
no silêncio da noite
liberto-as
em direcção às estrelas.

 13/8/2012

Florbela Ribeiro ©

sábado, 11 de agosto de 2012

A Náusea


A Náusea

1942

Num espelho encardido afixado
Numa moldura Luís XIV
Vislumbro em seco recorte
o meu vazio e o vazio
De meu quarto, encardidos

Este charuto, este rosto cansado e míope
É então Jean-Paul Sartre?

Uma semana sem Simone, sem
Notícias, sem concluir uma página sequer
Sorvendo a maresia nauseante
De todo o absurdo, este, o Todo
Absorto em resistir, em construir
Um sentido dentro de uma Europa-
                                                       um-
                                                             quarto-
                                                                         frio

A Guerra freme mas me talha esta sensação
De que o tempo, inábil, esculpe os homens em tédio
Tentando forçar uma neutralidade artificial
Que não existe, não pode existir

Estamos aqui, um triálogo
Entre o Absurdo e o Ego e a Morte,
A Morte monologal


Hoje
ao descer para buscar a correspondência
Vi a filhinha do casal ao lado, os marroquinos
As crianças não costumam sorrir-me,
Mas havia,
Um sorriso constante-teimoso sempre no rosto dela,
Sempre
Como algo vermelho rompendo uma muralha

Por um instante, naquele momento-bouquet
eu vi cores caudalosas lampejarem
Nesta semana cinzenta.

Sammis Reachers
do livro Poemas da Guerra de Inverno
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