quinta-feira, 20 de abril de 2017

Os espaços do sono – Robert Desnos


Os espaços do sono 
Tradução de Eclair Antônio Almeida Filho
À noite há naturalmente as sete maravilhas do mundo e a grandeza e o trágico e o encanto.
Nela as florestas se chocam confusamente com criaturas de lenda escondidas nos bosques.
Há você.
Na noite há o passo do caminhante e o do assassino e o do agente de polícia e a luz do revérbero e a da lanterna do trapeiro.
Há você.
Na noite passam os trens e os barcos e a miragem dos países onde é dia.
Os derradeiros sopros do crepúsculo e os primeiros arrepios da aurora.
Há você.
Uma ária de piano, um brilho de voz.
Uma porta range. Um relógio.
E não somente os seres e as coisas e os ruídos materiais.
Mas ainda eu que me persigo ou sem cessar me ultrapasso.
Há você a imolada, você que eu espero.
Por vezes estranhas figuras nascem no instante do sono e desaparecem.
Quando cerro os olhos, florações fosforescentes aparecem e murcham e renascem como carnosos fogos de artifício.
Países desconhecidos que percorro em companhia de criaturas.
E há você sem dúvida, ó bela e discreta espiã.
E a alma palpável do espaço.
E os perfumes do céu e das estrelas e o canto do galo de há 2 000 anos e o choro do pavão em parques em chama e beijos.
Mãos que se apertam sinistramente numa luz baça e eixos que rangem sobre estradas medusantes.
Há você sem dúvida que não conheço, que conheço ao contrário.
Mas que, presente em meus sonhos, te obstinas a neles se deixar adivinhar sem aparecer.
Você que permanece inapreensível na realidade e no sonho.
Você que pertence a mim por minha vontade de possuí-la em ilusão, mas que não aproxima seu rosto do meu como meus olhos fechados tanto ao sonho como à realidade.
Você que a despeito de uma retórica fácil em que a onda morre nas praias, em que a gralha voa em usinas em ruínas, em que a madeira apodrece rachando-se sob um sol de chumbo.
Você que está na base de meus sonhos e que excita meu espírito pleno de metamorfoses e que me deixa sua luva quando beijo sua mão.
À noite há as estrelas e o movimento tenebroso do mar, dos rios, das florestas, das idades, das relvas, dos pulmões de milhões e milhões de seres.
À noite há as maravilhas do mundo.
À noite não há anjos da guarda, mas há o sono.
À noite há você.
No dia também.

sábado, 15 de abril de 2017

MARIA MADALENA


(Germain Pilon, 1537-1590, The Ressurrection of Christ, Louvre)



Maria Madalena seguiu o rasto do perfume
do seu Amor e chega cedo ao sepulcro
Maria Madalena ouvia
cada sombra do caminho e esperava do fundo
do sepulcro o silêncio matinal, onde queria
entrar docilmente com perfumes
levava nos seus olhos a tristeza
de flores minúsculas à chuva
o seu coração carregava uma dúvida
Mas se a Morte existe
é porque depois existe a Vida.


15-04-2017

© João Tomaz Parreira

sábado, 8 de abril de 2017

Samy Adghirni: Os persas e seus nomes poéticos

Poesia é coisa séria no Irã. Quase todo mundo sabe de cor um monte de versos, rodas de amigos adoram debater autores e um dos principais ícones nacionais é o poeta Hafez (1310-1390), cujo túmulo em Shiraz atrai romaria do país inteiro. Hafez, aliás, era crente e capaz de recitar o Corão inteiro, mas celebrou em sua obra a embriaguez e o amor.
O gosto pela poesia parece ser um traço milenar da cultura persa, e até hoje pais dão aos filhos nomes, ou prenomes para ser mais exato, que são pura metáfora. Uns são bucólicos, outros românticos. Há também os metafísicos. É exemplo pra todo lado.
Tenho uma amiga que se chama Yeganeh (única no mundo). A irmã dela é Taraneh (canção). A chefe da agência Reuters no Irã leva o prenome de Parisa (aquela que é como uma fada). O da iraniana mais famosa do planeta, a ativista de direitos humanos e Nobel da Paz Shirin Ebadi, significa “doce”. Não confundir com “açúcar”, ou Paníz, em farsi, como é chamada minha assistente. Simin, personagem principal do badalado e premiado filme “A Separação”, quer dizer “aquela que brilha como prata”.
Homens também levam prenomes na mesma linha. Meu cabeleireiro é Behrooz (dia feliz), e o recepcionista do hotel onde fiquei ao chegar, Navid (boa notícia). Um tempo atrás entrevistei um cantor que se chama Omid (esperança). Conheço um sujeito que é Payam (mensageiro).
Ouvi vários outros nomes poéticos. Meus preferidos são Kohinoor (montanha de luz), Shahin (falcão peregrino) e Parastoo (andorinha).
Mas já repararam que os nomes dos governantes iranianos geralmente não seguem esse padrão? O presidente é Mahmoud [Ahmadinejad]. O líder supremo chama-se Ali [Khamenei], assim como o chanceler [Akbar Salehi] e o poderoso chefe do Parlamento [Larijani]. O Ministro da Defesa chama-se Ahmad [Vahidi] e o primeiro vice-presidente, Mohammad [Reza Rahimi].
Esses são nomes muçulmanos de origem árabe, comuns em famílias mais religiosas e, portanto, mais propensas a endossar o regime teocrático. Afinal, a influência árabe na Pérsia veio com a disseminação do islã, surgido onde é hoje a Arábia Saudita, lá pelos séculos 7, 8 e 9. Antes disso os persas eram essencialmente zoroastras, judeus e cristãos _hoje minorias.
[Folha SP, 1 mar 12]

sexta-feira, 31 de março de 2017

ALMOÇO NO TOPO DE UM ARRANHA-CÉUS




Como folhas presas no mesmo ramo
procurando no topo o lugar
 do sol.  Enquanto no solo
pequenos seres
raspam no chão o musgo, procuram
ganhar o dia,  correndo sob o mistério.
Vários rostos do mesmo inteiro ramo,
só quando o ocaso desce, saem das alturas
e se misturam na multidão.

31-03-2017

© João Tomaz Parreira  

quarta-feira, 29 de março de 2017

VIGÍLIA


Foto: Catherine Leroy, Vietnan, 1967


Senhor, partiram tão tristes
Os seus olhos, tão raiados de sonhos
Ainda há pouco punham a vida em dia.

Falávamos de planos, um cigarro
Ardia como única chama dos lábios,
Falávamos da primeira mulher
Que amamos, tão longe o nosso coração.

De Deus falamos às vezes, tão longe
Entre nuvens, aonde quer que fossem
Só os nossos passos cortavam o silêncio.

Agora os seus olhos partiram e só
Têm as minhas lágrimas, que me golpeiam
As pálpebras. O sol tropical é um pobre
Fantasma ele também entre a névoa matinal.

29-03-2017

© João Tomaz Parreira

sábado, 25 de março de 2017

E-book PASSAGEM: A poesia de Newton Messias


Prefácio

A poesia de Newton Messias é a verbalização de sua ampla humanidade: ora ferida (& exposta), ora oferta amiga, contundente em sua busca de paz e equalização, justiça e misericórdia. Frutos que ela quer e possui, e, em seu amor resiliente, avança semeando-os em todas as escalas, fundando suas próprias territorialidades semióticas.
Seu verso ora livre, ora liberto em rimas, tem o toque desconcertante e álacre da poesia marginal; alma e musicalidade são o tônus de suas composições, onde toda uma herança de modernos faz-se ouvir, ruído de fundo, eco a perpassar sua prosódia prenhe de linguagens mestiçadas. Filho e andarilho do mesmo chão pernambucano que um Cabral de Mello Neto e um Manoel Bandeira, encontramos em Newton um poeta feito, que trabalha a palavra com a perícia com que dedilha seu violão (é professor da violão clássico no Conservatório Pernambucano de Música).
Sua poesia não se alheia, refém de vazios alumbramentos, mas firma sua voz no cotidiano, percebendo e decompondo(-se) (n)o zeitgeist, o espírito de seu tempo, como neste trecho dePaz moderna:
após desejar bom dia em trinta grupos do whatsapp
saiu calado sem cumprimentar ninguém

depois de assinar um avaaz contra a corrupção
estacionou na vaga de idoso (...)

Sua fé é a crença dos alforriados da religiosidade, dos que depositam em Cristo o somatório de tudo o que são – fraquezas e dons, sucessos e angústias – enfastiados pelo moroso amor e a célere corrupção que faz descarrilhar do verdadeiro cristianismo a tantas das instituições ditas cristãs.
É um prazer segredar ao leitor que este pequeno volume, para parafrasear o título de um famoso livro de Mário Quintana, é um Baú de (alegres) Espantos, uma aprazível seleta de poesia das mais vivazes, audazes e comunicantes de empoderamento, empoderamento em amor, que tenho lido nos últimos tempos.

Sammis Reachers

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quarta-feira, 15 de março de 2017

Novo livro de J.T.Parreira: Sou Lázaro e Vou Recomeçar


Em seu mais novo e-book, o estimado poeta João Tomaz Parreira, com sensibilidade e singularidade emblemáticas, nos apresenta uma reunião de poemas tendo por eixo temático esta personagem ímpar das escrituras, Lázaro, (protó)tipo de todo homem que se achega a Cristo.

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domingo, 12 de março de 2017

O CAMINHO PARA EMAÚS

Conversávamos pensativos sobre as coisas
Que aqueles dias nos traziam, os prodígios
Que acabavam, por terra
Quase o terceiro dia, a noite
Na palma das nossas mãos vazias
Até que sem nenhum gesto grandioso
Senão o do instante, Alguém
Se aproximou a um passo de distância
Dos nossos olhos cegos
E sabia, esse Estranho, tudo o que sabia
Deus veio à nossa mente.


09-07-2014

©  João Tomaz Parreira

sexta-feira, 10 de março de 2017

O Judeu Eterno, poema de Iaacov Cahan


O JUDEU ETERNO

Um Judeu errante encontrou certa vez um homem
com um machado na mão, o trajo sujo de sangue.
O Judeu murmurou: "Deus!" e para trás deu um pulo.
O homem também se assustou, o seu rosto fez-se escuro.
"Por que erra você por aqui, Judeu?" disse ele.
O Judeu sentenciou: "Deus permanece sempre".
O homem gritou furioso: "O que é que você murmura?"
O Judeu replicou: "Deus é juiz, faço anúncio".
Ele brandiu seu machado, golpeou o Judeu no rosto.
O Judeu caindo gritou: "Deus vinga o que está morto!"
Ora quando o mesmo homem um dia se foi à praia,
Deparou-se-lhe o Judeu quando ia de um lado a outro.
Aturdido ele gritou: "Mas como, você ainda vive!"
Deu-lhe o Judeu a resposta: "No Senhor subsisto".
Agarrou ele o Judeu, jogou-o dentro da água.
O Judeu afundou e não proferiu palavra.
Ora quando o mesmo homem um dia saiu para a caça
encontrou ele o Judeu, esperando-o, cara a cara.
Danou-se ele e berrou: "Com vida sempre você!"
"Com auxílio do Senhor!" respondeu-lhe o Judeu.
Ele fez pontaria, acertou-lhe um projétil no peito
o Judeu caiu; e caindo invocou seu Deus.
Aquela noite o homem sonhou. E que sonho foi que teve?
Ante ele estava o Judeu. Vivo, aparentemente.
Ele o fitou com agudez, e murmurou uma vez outra:
"Deus vê o que se passa, Ele é juiz como outrora".
Ele saltou para o agarrar, ele brandiu o seu punho.
O Judeu se ergueu no ar e se desmanchou entre o fumo.
Pela manhã ele escutou as suas batidas à porta.
Pela tarde ainda o viu, defronte, dando passadas.
Ele voltou nos seus sonhos. Ele até hoje ainda volta.
Ele perturba o seu sono, seus vagares, assim falam.
Que poder nele se oculta? Que segredo se veda?
Ele tem Deus nos seus lábios, na sua ascensão e sua queda.

Tradução de Zulmira Ribeiro Tavares

In Quatro Mil Anos de Poesia (Org. de J. Guinsburg)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A ORELHA FERIDA DE VAN GOGH






Ponho-me na orelha de Van Gogh
Como Van Gogh
Metia nas suas botas gastas
Os pés, que punha e tirava. A orelha
De Van Gogh levava consigo o crocitar
Dos corvos e o brandir de espigas
Contra os céus. Ponho-me no lugar
Do silêncio da orelha de Van Gogh
Ele fê-lo por necessidade, para ouvir
Apenas o que vem depois de nada.

27-05-2016 
© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Paul Claval: Fundamentalismos


(...) As situações de contato cultural abrem assim a via aos questionamentos. Fazendo descobrir outros códigos e outros sistemas de regras, convidam ao questionamento das bases do universo no qual se vive. Em face ao perigo de uma eventual subversão, a reação pode ser, ao inverso, a de se fechar no seu próprio sistema e condenar aqueles com os quais está se confrontando — é a lógica dos fundamentalismos. 
Nas sociedades onde a cultura é bastante diversa e aberta para que apareçam os grupos especializados na manipulação de seus aspectos abstratos, filosóficos, científicos, religiosos ou artísticos, o desenraizamento faz freqüentemente parte das técnicas de base da formação dos indivíduos: desde a Renascença, as elites europeias foram iniciadas, ao mesmo tempo, na sociedade de seu tempo, e na língua e na cultura da Grécia e da Roma antigas. A frequentação da Bíblia oferecia um terceiro pólo de distanciamento. A plasticidade da cultura ocidental, sua capacidade de mudar de códigos, de regras ou de normas sem perder sua unidade e sua inspiração profundas deve-se, sem dúvida, a este fato. 

in Geografia Cultural (Editora da UFSC, 2007)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

INSULTO, poema de Carlos M. Grunberg


Insulto

Chamaste-o judeu com magnífica fúria.
Gritaste-lhe judeu com soberba coragem.
A palavra judeu te parece uma injúria,
a palavra judeu te parece um ultraje.

Ele a tinha por símbolo de glória e de martírio,
guardava-a como um signo de trágica grandeza.
Pela sua pureza a equiparava a um lírio,
a um lírio a equiparava pela sua beleza.

Agora vê com olhos mais agudos e sábios.
Vê tão diafanamente como o que apalpa e toca.
Vê que todos os nomes ofendem em teus lábios,
que todas as palavras insultam em tua boca.

Tradução de Renata Pallotini

in Quatro Mil Anos de Poesia (J. Guinsburg, org.)


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

LA LUTTE AVEC L'ANGE



Começou o Anjo. Ou começou Jacob.
O que nos chega aos ouvidos é o rumor
do vento sobre as águas, sem asas só as mãos 
do Anjo voam e enlaçam o corpo de Jacob
o silêncio do mundo não consegue
perceber as suas vozes, Jacob responde
com as armas que tem, o braço forte
de quem amou duas mulheres.
O nome não sabiam um do outro, só o ardor
a combater a solidão, os corpos como cálices
onde terra e céu se misturaram no suor
até que a torrente do dia seja clara.
 17-01-2017
© João Tomaz Parreira


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Palavras Crianças no Jardim de Aula, novo livro de Pedro Marcos Pereira Lima


O escritor e poeta Pedro Marcos Pereira Lima acaba de nos brindar com sua mais nova obra. Palavras Crianças no Jardim de Aula, uma publicação da Editora Scortecci (selo Pingo de Letra) reúne poemas de incentivo à leitura de interesse geral, mas focadas notadamente no público infantojuvenil.

"O gosto pela leitura pode surgir através da poesia, desta forma aumenta o interesse em escrever. A poesia mexe com o imaginário dos jovens, das crianças, e dos adultos que ainda carregam a infância dentro de si levando-nos a expressar vontades, descobrindo que se pode brincar com as palavras.
aqui
poesia quer
contar histórias
que são das palavras
que vão se contando

mas não é só a história
em si que conta
é o contar

que não se calcula na contagem
quando o "o" troca-se por "a"
e contar vira cantar
de fantasias e realidades..."


O livro possui 60 páginas e custa R$ 30,00.
Interessados em adquirir a obra, entrem em contato pelo e-mail: pemarc@ig.com.br

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